[Panfleto] BYA e Barbaria – À merda o parlamento e as suas leis. Por um verdareiro movimiento autónomo do proletariado.
Traduzido para o português por Luis Judíce, baixe pdf aqui
Nas últimas semanas, a brutalidade do capital tem-se feito notar em toda a sua crueza com o suicídio de uma mulher despejada e o terrível despejo de outra. Inseridos num mar de constantes agressões e de famílias que são privadas dos seus lares precários, estes acontecimentos aquecem ainda mais um clima social já muito carregado por um contínuo de miséria e repressão por parte dos políticos-gestores dos interesses dos ricos.
Tudo isto desencadeou mobilizações onde se conjugam um cansaço e preocupação geral real da grande maioria trabalhadora, com a direcção política e sindical que baseia a sua actuação em mudanças legislativas e esperanças parlamentares, com ou sem «pressão das ruas».
Partimos do princípio de que essas mudanças são irreais. O próprio sistema que gera a miséria não pode, nem que quisesse, travar um mecanismo automático que responde às suas próprias leis de acumulação mercantil. Por muito que o neguem os reivindicadores de direitos mortos, neste sistema regido pelo dinheiro, a habitação — e com ela todas as necessidades humanas — é uma mercadoria, e continuará a ser enquanto sobrevivermos debaixo das botas deste sistema.
Perante as mobilizações que estão a acontecer, com o Sol como epicentro das mesmas, devemos colocar três questões básicas e necessárias para começar a falar de um movimento real de classe:
- O problema da habitação é apenas um entre muitos, e tão sangrento como todos. A subida brutal e imparável dos preços, o trabalho precário e instável com salários que não garantem nem a subsistência, a repressão dos migrantes e da população em geral, uma direita e uma esquerda que se repartem o trabalho de gerir e reproduzir diariamente a nossa pobreza… todos eles fazem parte de um mesmo problema: as relações sociais que nos são impostas, ou seja, o capitalismo.
- As lutas isoladas contra este ou aquele fenómeno, que não se questionam a sua unidade, estão condenadas ao fracasso. Neste momento há lutas e greves — como a do pessoal docente na Comunidade de Madrid — cuja convergência com as mobilizações pela habitação é necessária para dar um sentido geral à luta.
As actuais mobilizações são muitas vezes apresentadas como uma superação do 15M. Ao contrário destas, o 15M partia de uma visão geral onde todas as problemáticas cabiam numa só, embora isso nem sempre fosse algo consciente. Isto caracteriza todo movimento de classe, mesmo os mais fracos: a extensão e a generalização dos seus objectivos. Para que estas mobilizações se tornem de facto um movimento de classe, para que ultrapassem verdadeiramente os limites cidadanistas do 15M e mostrem que aprendemos com as nossas derrotas, é indispensável que se expandam e se generalizem, e que confluam com as diferentes lutas que surjam a nível estatal e internacional. Isto não pode ser forçado com palavras de ordem nem com fórmulas organizativas. Só o conseguiremos se superarmos a lógica das exigências parciais, que nos separa uns dos outros, e irmos à raiz comum dos nossos problemas.
- Mas isto não servirá de nada se não tivermos as rédeas do nosso próprio movimento. É fundamental que a luta seja dirigida e orientada pelas assembleias, que as assembleias se tornem os órgãos da luta autónoma do proletariado e que não permitam que ninguém decida por elas o caminho a seguir. Porque são o espaço unitário de onde se pensa, se organiza e se age, tudo ao mesmo tempo. Com elas evitamos que a nossa actividade seja dirigida por organismos partidários e sindicais que têm os seus próprios interesses.
Devemos aprender com a capacidade que os sindicatos tiveram para parar a greve da Airbus, apesar da oposição de muitos trabalhadores e trabalhadoras nas assembleias. Sem assembleias territoriais com poder de decisão, que organizem o movimento e expressem o poder unitário da nossa classe, qualquer convocação de greve geral não será senão a enésima repetição das procissões sindicais, feitas para transformar os vende-trabalhadores, aqueles que sancionam a nossa precariedade com a reforma laboral e a nossa miséria com a reforma das pensões, nos legítimos representantes da «pressão popular» sobre o governo. Não queremos a greve geral da CCOO e UGT, aplaudida pela esquerda e extrema esquerda do capital. Queremos a greve de massas dirigida pelas assembleias territoriais, as únicas células que podem formar um verdadeiro movimento massivo que supere a violência e as condições de miséria a que este sistema nos submete.
Enquanto não assumirmos as nossas lutas, sem intermediários, sem deixá-las nas mãos de políticos e sindicalistas, sem confiar minimamente em leis e parlamentos, só podemos passar de desilusão em desilusão, sem encontrar a consciência do que somos e o poder histórico da nossa luta como uma única classe mundial.
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